segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Estamos indo de volta pra casa

Por Enquanto
Cássia Eller

Mudaram as estações
Nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Está tudo assim tão diferente
Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
Que tudo era para sempre
Sem saber, que o para sempre, sempre acaba
Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém, só penso em você
E aí, então, estamos bem
Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está
Nem desistir nem tentar agora
Tanto faz
Estamos indo de volta pra casa...



Bjo, bjo, bjo.

R.E.M.I.S.S.Ã.O

Estive gravemente doente. Sem exagero ou drama, meu prognóstico não era dos melhores e as chances de cura reduzidas. Durante exatos 8 meses, fiz tudo que me foi proposto: quimioterapia em altas doses, radioterapia, exames, consultas. Tive mucosite para dar e vender, pirei com a Cisplatina, saí de todos os controles do MTX dentro do tempo normal, não tive nenhuma intercorrência grave, não precisei de transfusões.
Oito meses. Tempo mais que suficiente para mudar minha vida e de todos que estão ao meu redor. Tempo em que os tumores da coluna vertebral, das costelas e da perna foram bombardeados por todo tipo de terapêutica eficaz contra eles. E eu vi, a cada exame feito, que os 7 pontos de lesão estavam, de fato, sofrendo com a overdose imposta. Nada de crescimento dos tumores, nada de metástase pulmonar, nada de aparecimento em outros locais. Difícil acreditar, mas presenciei esses fatos. E eu, Renata, também fui testemunha de muitos outros milagres, desses que a medicina se questiona, torce o nariz, desconfia, mas não pode negar a existência.
No entanto, o maior dos acontecimentos foi o fim do tratamento e a entrada na fase de manutenção. Saí sem nenhuma sequela, sem nenhum rancor, sem nenhum trauma. Continuei sendo a mesma pessoa de sempre, porém com um agravante: muito mais madura e preparada para a vida, vestibular pelo qual todos os dias somos submetidos.
Engano achar que tirei de letra tudo isso. Também tive meus momentos de irritação máxima, desesperança, medo, vontade de desistir. E quando as veias insistiam em sumir então... aaff! Vivi na montanha russa, no limite, na fronteira. E hoje percebo que precisei vivenciar o luto em muitos momentos, precisei sofrer por aquilo que as pessoas chamam de "o de menos". Faz parte do processo de cura e ignorar essa etapa é furada. Não me senti na obrigação de ser feliz todos os dias, ter bons e belos pensamentos, ser positiva e alimentar um bom humor invejável. Quem recebe um diagnóstico desse não consegue ser a majestade do otimismo. Não consegue nem pode! Enfim, fui humana, me dei esse direito.
Convivi com pessoas incrivelmente especiais, mas vou deixar Petrilli como representante maior. Ele me prometeu um bisturi de manteiga e chocolates no pós-operatório, mas acho que só uma visita do Gianecchini mesmo para aliviar a dor de uma cirurgia torácica... ahahahaha! Exemplo máximo e inquestionável do que é ser médico (ele é médico, não só fez medicina), do que é ser humano, do que é ser gentil e educado, do que é ser o papa do osteossarcoma e mesmo assim não se sentir como o tal. Difícil achar aí, nas esquinas da vida, alguém igual a ele. Sorte minha ter conhecido.
Desde então, cada segundo de vida toma proporções incalculáveis para mim. V.I.D.A.... só quando contemplamos a morte tão de perto, começamos a dar valor. Ao perceber isso e vir tanta criança perdendo sua infância nas salas de quimioterapia, passei a acreditar que o significado de justiça permeia o divino. Nós, homens, não compreendemos. Tentei, mas jamais vou entender porque tantas vidas lindas são submetidas a processos tão dolorosos, debilitantes e torturantes para seres que só querem brincar de carrinho e boneca. Talvez essa tenha sido uma das experiências mais marcantes... lembrar das crianças que conheci e de como suas existências foram marcadas pela doença.
Ainda não posso dizer que estou curada... isso demanda um certo tempo, entretanto estou em REMISSÃO. E, para quem passou por toda essa turbulência, essa palavra soa como música. Durante 1 ano e meio, ainda farei uso de quimioterapia oral (Ciclofosfamida e Metotrexato em baixas doses), de segunda a sexta-feira. Felizmente, não estou tendo problema algum com uso das drogas. É tranquilo, fácil e um pouco de boa vontade ajuda demais. Além disso, quem já recebeu quimio venosa, nem deve sentir o peso mínimo dos comprimidinhos pela manhã... hahaha...
Enfim, tudo nessa vida passa mesmo (eu sei, eu sei... é mais um bordão chato, mas isso não tira suas verdades)... como diz uma tia, se as coisas boas vão embora, as ruins também vão... Estou feliz! Mais que isso... estou naquela fase em que o peso de um avião é retirado das suas costas. Sensação de missão cumprida, de final de guerra, de campeonato, em que o capitão do time, depois de muita luta, levanta a taça de campeão e dá aquele grito de realização plena.
Agora é arrumar as malas para a volta para casa. Despedir de São Paulo, cidade incrível, que, de fato, representa o primeiro mundo brasileiro. Vambora? hahaha... Iupiiii!



Viva La Vida

Bjo, bjo, bjo.


 

domingo, 23 de setembro de 2012

Quando Deus aparece

Tenho muitos amigos que acreditam em Deus. Um deles, que é como um irmão para mim, comentou no facebook sobre um recital que estava assistindo. Tomando pela comoção do momento, ele finalizou a postagem assim: "Nessas horas Deus aparece".
Fiquei com essa frase na cabeça. De fato, Deus não está em promoção, se exibindo por aí. Ele escolhe, dentro do mais rigoroso critério, os momentos de aparecer pra gente. Não sendo visível aos olhos, ele dá preferência à sensibilidade como via de acesso a nós. Não sou católica praticante e ritualística... não vou à missa aos domingos nem faço novenas. Já houve um tempo em que eu fazia essas coisas com mais devoção, mas hoje Deus se expressa de outras formas.
Para mim, ele aparece através da música e nem precisa ser uma obra prima de Chico Buarque. Pode ser uma música popular mesmo, pode ser algo que toque no rádio, mas que me chega no momento exato em que preciso estar reconciliada comigo mesma. De forma inesperada, a música me transcende e me aproxima do divino.
Deus me aparece nos livros, em parágrafos que não acredito que possam ter sido escritos por um ser mundano: foram escritos por um ser mais que humano.
Deus me aparece (e muito) quando estou em frente ao mar. Tivemos um papo longo há mais ou menos 1 ano e meio, quando havia somente as ondas entre mim e ele. A gente se entende em meio ao azul, que seria a cor de Deus, se Ele tivesse uma.
Deus aparece num abraço apertado em que é possível se escutar os batimentos cardíacos.
Nesse exato momento, escuto "My Sweet Lord" e posso assegurar: a letra é um animado bate-papo com Ele, ritmado pelo rock'n'roll. Aleluia.
Deus aparece quando choro, quando a fragilidade é tanta que parece que não vou conseguir me reerguer. Aparece quando alguém me liga e eu tenho impressão de que essa pessoa está mais perto de mim do que o vizinho da frente. Aparece nas lambidinhas de Cleo e Alvin e , na voz tranquila do Petrilli, quando escuto uma criança chorar ao nascer. Deus aparece nas vitaminas que a minha mãe faz para eu ganhar peso e uma mãe é um atestado da presença desse cara.
E quando eu O chamo de cara e Ele não se aborrece... aí, sim, tenho certeza de que ele está comigo mesmo.

My Sweet Lord! Aleluia!

Bjo, bjo, bjo.

sábado, 22 de setembro de 2012

Neam?

"Afinal, há é que ter paciência, dar tempo ao tempo, já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte."
Guimarães Rosa.



Ele, sempre ele!

Bjo, bjo, bjo.

C'est fini, radio!

Ok, estou super em falta com vocês. Assumo o erro, mas estou aqui para começar a reparar estas faltas... hahaha! Andei muito sumida e, nesse intervalo de tempo, muitas coisas aconteceram. Contarei tudo, porém aos poucos.
Bom, dando continuidade à história, o post de hoje será todo trabalhado para contar o final da radioterapia. Como havia falado anteriormente, faria 25 sessões de radio na coluna. Dito e feito.  
Segui todas aquelas recomendações que a equipe médica te dá: evitar sol e consumo de alimentos ácidos, hidratar a pele, usar as loções indicadas, tomar os remedinhos salvadores no momento certo e por aí vai... No entanto, quando procuramos relatos de pessoas que já passaram por essa experiência, nem sempre encontramos depoimentos, digamos, encorajadores e, nessa hora, CUIDADO!  
Cada situação é uma situação. É clichê, mas não deixa de ser verdade. No meu caso, por exemplo, li depoimentos de pessoas que tiveram queimaduras de segundo grau na pele, disfagias violentas a ponto de ser necessário uso de sonda nasogástrica, fobia por causa da máscara, náuseas, vômitos, fraqueza e até interrupção do tratamento devido a efeitos colaterais.
Passei pelos primeiros dias de radioterapia tranquilamente. Sem sentir absolutamente nada. Um sonho, perto do que foi a quimioterapia... Depois da décima aplicação, momento divisor de águas, comecei a sentir um pouco de dor para engolir, às vezes náusea e, mais para o final, após a dor na garganta ter sido controlada, veio o cansaço. Uma fadiga sem explicação, que te tira a vontade de levantar da cama e fazer outras coisas legais. No entanto, isso foi mais para o final... final mesmo, tipo última semana e bastou a radio acabar para tudo acabar também. Maravilha!
Tirando esses "acidentes" de percusso, o resto foi bem tranquilo. Usei um hidratante excelente, de uma marca de produtos oncológicos chamada Pielsana, à base de vitaminas A e E, de 3 a 4 vezes por dia, religiosamente todos os dias, o que ajudou minha pele a nem ficar vermelha. Assim que as aplicações chegaram ao fim e os campos foram retirados, ninguém sabia onde tinha sido irradiado. Dei prioridade a alimentos bem saudáveis, evitei exposição solar, concentrei na radio. No mais, durante essa etapa, dá para fazer outras atividades: viajar no final de semana, passear, se divertir, dormir... porque a radioterapia te toma pouco tempo comparando com outros procedimentos. E, além disso, pelo menos para mim, foi mais tranquila que a quimio...
Fiz 5 semanas exatas de radioterapia, não perdi nenhuma sessão, não tive intercorrências graves, não precisei de tranfusões  nem de medicamentos para dores intensas ou outros problemas. Cada aplicação durava em torno de 40 minutos. Pode parecer muito tempo, mas, na verdade, acertar os campos demanda cuidados especiais, técnica apurada, bem-estar do paciente... então a radiação, em si, é rápida, durando em torno de 2 ou 3 minutos.
Assim, recebi alta, com sensação de dever cumprido, com direito à carta oficial de libertação e tudo, assinada a próprio punho por Chen, em papel timbrado do Albert Einstein. Enfim, era oficial... ahahaha! Dia 04 de Agosto... para entrar para a história!
E depois de todo esse terremoto em minha vida, tudo indicava que as coisas voltariam ao normal em breve... volta para Montes Claros, para a faculdade, para tudo que eu tinha deixado para trás...
 
 
Que assim seja!
 
Bjo, bjo, bjo.
 
 

domingo, 29 de julho de 2012

Radioterapia

Depois do momento alforria da quimio, era hora de planejar a radioterapia. Esperei muito por esse dia porque, em suma, isso significava os últimos passos efetivos do tratamento. Agora, sim, eu poderia começar a vislumbrar o retorno à vida "normal".
Petrilli passou o bastão para Michael Jenwei Chen, pessoa de nome diferente, radioterapeuta do Albert Einstein, que não quer me libertar da radio para ir ao Intermed Minas 2012... hahahahaha!
Planejamento de radioterapia sempre é um caso à parte... acertar o campo, marcar tudo certinho, testar e torcer para que a máquina não pare na sua vez... Ficou definido, então, que eu faria 5 semanas de radio na coluna, totalizando 25 sessões. Nada mais, nada menos que isso nas minhas vértebras.
De antemão, já soube que, no decorrer das semanas, poderia sentir desconforto no trajeto do esôfago, a pele ficar meio avermelhada, ter fraqueza. Mas isso tudo viria a partir da décima aplicação. E, nesse caso, os efeitos colaterais também não são uma regra. Cada paciente reage de uma maneira.
O importante dessa fase é manter uma sequência boa de apliações, tentar controlar bem os efeitos colaterais dentro do possível, ter boa hidratação e cuidar da pele. Perto do que foi a quimioterapia, a expectativa é de que a radio seja mais suave, mansinha, sem muitos problemas. Amém, Senhor!


No mais, é tentar aproveitar bem os dias, ainda mais sem a responsabilidade da quimio. Curtir São Paulo, visitar lugares legais, passear, viajar nos finais de semana. E esperar aquele momento master pós-QT: a volta dos cabelos... hahahaha!

Bjo, bjo, bjo. 

sábado, 28 de julho de 2012

Bye bye Quimio!

Boa tarde, people... Em primeiro lugar, mil desculpas pela ausência por aqui. Mas bons ventos e boas notícias me trazem hoje para o blog.
Depois de exatos 6 meses de quimioterapia, depois de tudo (náuseas delirantes, vômitos incontroláveis, adeus aos cabelos, mucosite, muitas furadas, ansiedade, alegrias, perdas e dúvidas), finalmente recebi a notícia que todo paciente sonha em escutar: a quimio acabou! Isso: acaboou, acabooou, acaboooou! Difícil descrever a alegria que sentimos, acreditar que realmente encerramos esse ciclo, entender como passamos por isso tudo e ainda nos encontramos inteiros (ou quase inteiros)... hahahahaha!
Assim que Petrilli e seus olhos cor de mar azul olharam para mim e comunicaram a notícia mais esperada dos últimos tempos, um misto de alegria, emoção, sensação de dever cumprido, libertação, choro fácil e felicidade sem limites invadiram meu coração. Você não sabe se chora, se grita, se corre, se abraça quem está do seu lado, se não acredita... hahahaha... mas que é muito bom, isso é!
Durante esse tempo, apesar de toda dificuldade imposta pelo tratamento, tenho orgulho em dizer que, mesmo tomando Doxo e MTX em altas doses, nunca tive intercorrências graves. Nenhum episódio de neutropenia febril, nenhuma infecção, nada de antibióticos, nenhuma transfusão de plaquetas, meia bolsa de sangue, nenhuma internação a não ser para os ciclos do Methotrexate.
Durante esse tempo, apesar das incertezas, continuei firme, não desisti no meio do caminho, não me deixei levar pelo prognóstico sombrio, não sucumbi à dor de ter uma das doenças mais temidas do mundo. Não deixei de comer, mesmo chorando, quando minhas mucosas se rebelaram. Não faltei a uma consulta, não deixei de fazer nenhum exame, bebi toda água necessária para sair dos controles do MTX.
Durante esse tempo, conheci pessoas maravilhosas, crianças incríveis que me ensinaram que, nem sempre, os adultos são os mais sábios. Aprendi a ser mais forte e tolerante, a reclamar menos da vida e a dar valor a coisas que outrora passavam despercebidas.
Durante esse tempo, senti saudade de quem está longe, senti falta da correria da faculdade e até do calor insuportável de Montes Claros. Em contrapartida, ganhei muitos amigos novos e recebi todo o carinho possível... Fui mimada, ganhei presentes, recebi muitas visitas, fiz passeios.
Durante esse tempo, convivi intensamente com Petrilli, Carla, Paulo e Camila, meus médicos queridos que me ensinaram coisas que não encontramos nos livros de medicina. Ensinamentos que terei a honra de carregar para o futuro. E conheci a equipe de enfermagem mais fantástica de todos os tempos. Os voluntários mais despojados e os funcionários inesquecíveis.
Durante esse tempo, tive a melhor família e amigos do mundo e qualquer homenagem é muito pouco diante do que eles merecem. Minha dívida com todos eles só aumentam... hahaha...
E agora, depois de olhar para isso tudo, admito que é impossível sair desse furacão e não ter boas lições de vida. Daqui uns dias, tudo começa a voltar para seus devidos lugares: voltarei para Montes Claros e para a faculdade, meus cabelos vão crescer, não vou consultar toda semana nem me preocupar tanto com minha hemoglobina. Porém, meu olhar para as coisas e pessoas será diferente porque eu estou diferente. E que tudo isso seja motivação para eu ser melhor, mais humana, menos exigente, mais madura. Importar com o que realmente merece atenção, valorizar quem está perto e te ama, cuidar da saúde, fazer exercícios físicos, assistir filme, ler bons livros. Estudar. Amar. Ser feliz.



Da série: a última quimio a gente nunca esquece.

Bjo, bjo, bjo.