domingo, 29 de julho de 2012

Radioterapia

Depois do momento alforria da quimio, era hora de planejar a radioterapia. Esperei muito por esse dia porque, em suma, isso significava os últimos passos efetivos do tratamento. Agora, sim, eu poderia começar a vislumbrar o retorno à vida "normal".
Petrilli passou o bastão para Michael Jenwei Chen, pessoa de nome diferente, radioterapeuta do Albert Einstein, que não quer me libertar da radio para ir ao Intermed Minas 2012... hahahahaha!
Planejamento de radioterapia sempre é um caso à parte... acertar o campo, marcar tudo certinho, testar e torcer para que a máquina não pare na sua vez... Ficou definido, então, que eu faria 5 semanas de radio na coluna, totalizando 25 sessões. Nada mais, nada menos que isso nas minhas vértebras.
De antemão, já soube que, no decorrer das semanas, poderia sentir desconforto no trajeto do esôfago, a pele ficar meio avermelhada, ter fraqueza. Mas isso tudo viria a partir da décima aplicação. E, nesse caso, os efeitos colaterais também não são uma regra. Cada paciente reage de uma maneira.
O importante dessa fase é manter uma sequência boa de apliações, tentar controlar bem os efeitos colaterais dentro do possível, ter boa hidratação e cuidar da pele. Perto do que foi a quimioterapia, a expectativa é de que a radio seja mais suave, mansinha, sem muitos problemas. Amém, Senhor!


No mais, é tentar aproveitar bem os dias, ainda mais sem a responsabilidade da quimio. Curtir São Paulo, visitar lugares legais, passear, viajar nos finais de semana. E esperar aquele momento master pós-QT: a volta dos cabelos... hahahaha!

Bjo, bjo, bjo. 

sábado, 28 de julho de 2012

Bye bye Quimio!

Boa tarde, people... Em primeiro lugar, mil desculpas pela ausência por aqui. Mas bons ventos e boas notícias me trazem hoje para o blog.
Depois de exatos 6 meses de quimioterapia, depois de tudo (náuseas delirantes, vômitos incontroláveis, adeus aos cabelos, mucosite, muitas furadas, ansiedade, alegrias, perdas e dúvidas), finalmente recebi a notícia que todo paciente sonha em escutar: a quimio acabou! Isso: acaboou, acabooou, acaboooou! Difícil descrever a alegria que sentimos, acreditar que realmente encerramos esse ciclo, entender como passamos por isso tudo e ainda nos encontramos inteiros (ou quase inteiros)... hahahahaha!
Assim que Petrilli e seus olhos cor de mar azul olharam para mim e comunicaram a notícia mais esperada dos últimos tempos, um misto de alegria, emoção, sensação de dever cumprido, libertação, choro fácil e felicidade sem limites invadiram meu coração. Você não sabe se chora, se grita, se corre, se abraça quem está do seu lado, se não acredita... hahahaha... mas que é muito bom, isso é!
Durante esse tempo, apesar de toda dificuldade imposta pelo tratamento, tenho orgulho em dizer que, mesmo tomando Doxo e MTX em altas doses, nunca tive intercorrências graves. Nenhum episódio de neutropenia febril, nenhuma infecção, nada de antibióticos, nenhuma transfusão de plaquetas, meia bolsa de sangue, nenhuma internação a não ser para os ciclos do Methotrexate.
Durante esse tempo, apesar das incertezas, continuei firme, não desisti no meio do caminho, não me deixei levar pelo prognóstico sombrio, não sucumbi à dor de ter uma das doenças mais temidas do mundo. Não deixei de comer, mesmo chorando, quando minhas mucosas se rebelaram. Não faltei a uma consulta, não deixei de fazer nenhum exame, bebi toda água necessária para sair dos controles do MTX.
Durante esse tempo, conheci pessoas maravilhosas, crianças incríveis que me ensinaram que, nem sempre, os adultos são os mais sábios. Aprendi a ser mais forte e tolerante, a reclamar menos da vida e a dar valor a coisas que outrora passavam despercebidas.
Durante esse tempo, senti saudade de quem está longe, senti falta da correria da faculdade e até do calor insuportável de Montes Claros. Em contrapartida, ganhei muitos amigos novos e recebi todo o carinho possível... Fui mimada, ganhei presentes, recebi muitas visitas, fiz passeios.
Durante esse tempo, convivi intensamente com Petrilli, Carla, Paulo e Camila, meus médicos queridos que me ensinaram coisas que não encontramos nos livros de medicina. Ensinamentos que terei a honra de carregar para o futuro. E conheci a equipe de enfermagem mais fantástica de todos os tempos. Os voluntários mais despojados e os funcionários inesquecíveis.
Durante esse tempo, tive a melhor família e amigos do mundo e qualquer homenagem é muito pouco diante do que eles merecem. Minha dívida com todos eles só aumentam... hahaha...
E agora, depois de olhar para isso tudo, admito que é impossível sair desse furacão e não ter boas lições de vida. Daqui uns dias, tudo começa a voltar para seus devidos lugares: voltarei para Montes Claros e para a faculdade, meus cabelos vão crescer, não vou consultar toda semana nem me preocupar tanto com minha hemoglobina. Porém, meu olhar para as coisas e pessoas será diferente porque eu estou diferente. E que tudo isso seja motivação para eu ser melhor, mais humana, menos exigente, mais madura. Importar com o que realmente merece atenção, valorizar quem está perto e te ama, cuidar da saúde, fazer exercícios físicos, assistir filme, ler bons livros. Estudar. Amar. Ser feliz.



Da série: a última quimio a gente nunca esquece.

Bjo, bjo, bjo.

sábado, 16 de junho de 2012

Um presente...

Bom, já que a semana foi de muita poesia, aqui vai uma... essa eu ganhei da minha amiga e colega Natalie e achei liiinda... hehehehe! Obrigada, Nath. Somente pessoas com sua sensibilidade e carinho podem fazer isso. Vou guardar para sempre.



(Dedico este poema a Renata Cambuy, à sua família, à sua fé.)

Oi menina , quão pequena sois
Para tanto saber e em tão pouco tempo
Tanto ter que aprender nesse longo momento
Em que tivesses , por força das circunstâncias
Que se ausentar dessas crianças
Que somos todos nós.

Para você menina, nunca dei um presente
Então percebo o quanto amo as palavras
Pois através dessas simplórias e sonoras dádivas
Posso ousar, ao menos tentar expressar
O que talvez os seus mais próximos não puderam falar
dessa explosão de sentimentos que há na gente.

Todos nós, engatinhando no terreno da medicina, exaustivamente,
Plantando , regando, nos empenhando
Em sermos melhores médicos, sonhando...
Às vezes tanto, que nem percebemos
O convite da vida , para aproveitarmos e aprendermos
Com todos que a nossa volta, algo sempre nos ensina, mesmo que involuntariamente.

Tolice achar-nos maduros demais para tudo
Quando a época da colheita ainda nem chegou
E mesmo que tivesse chegado , aqui estou
Para dizer que sempre haverão novos terrenos para serem plantados
E valorizar isso é irrelevar as sementes ruins que ficaram no passado
E perceber que todos somos aptos para dar frutos.

Na metáfora da vida, menina,
Você apenas trocou de lugar no consultório
De médica a paciente , não se assuste com o repertório:
Anamnese, exame clínico, propedêutica , cuidado, zelo.
E o que mais nos intriga nesse hemisfério
É que a vida não tem um algoritmo nem protocolos para cada situação.

Só quero que saiba que ao voltar
Quero recebê-la e ser contagiada por esse encanto
Essa força, brio e capacidade de mostrar de um jeito brando
Quão mesquinhos são os detalhes
Quando se pode aproveitar mais e mais
Dos alguéns ao nosso redor, e o que cada um pode nos acrescentar.

Se pudéssemos desapegar dos pré-conceitos
Das autoregras, dos prós e contras
E apenas olhar, apenas conhecer, admirar-se e perceber
Cada vez mais nos surpreenderíamos, quão humilde e sofisticada é a Sabedoria Divina
Que só faz morada naqueles que não se acham dignos dela.

Quero poder ouvir suas histórias, suas conquistas
E sorrir e chorar com todas elas,
E comemorar e aprender com todas elas
E perceber que, não importa que não se forme conosco
Pois , na Universidade da vida
Já és Doutora antes de nós!




Bom final de semana a todos.

Bjo, bjo, bjo.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Poesia numa hora dessa?

Peguei emprestada a expressão que Luiz Fernando Veríssimo usa na apresentação dos seus poemas para começar a falar de uma coisa que me parece emergencial neste momento: poesia. Sim... poesia, apesar de tudo levar a crer que agora não é apropriado. Depois do MTX, da Doxo, do planejamento da radioterapia, de mais uma rebelião das minhas mucosas, depois dos conflitos psicológicos, francamente: poesia numa hora dessa?
Vou explicar... andei estressada e chateada com uma sequência de acontecimentos que, por vezes, pareceram pesados demais para mim. Situações que não envolviam somente minha vida e meus dramas, mas de outras pessoas também. Maio foi um mês de perdas e despedidas e Junho chegou igualmente assim: levando para o horizonte pessoas que, em resumo, foram muito importantes. Nesse tempo, entre o choque de uma notícia e outra, fiquei procurando algo que pudesse ir preenchendo as lacunas deixadas pela saudade e também uma forma de driblar tantas dúvidas que batem no nosso coração. Independente de qualquer coisa, o diagnóstico de um câncer nos coloca no mesmo patamar... ele nos iguala de uma forma tão real que é impossível alguém se sentir em posição privilegiada ou achar que está livre da dor ou da própria morte a qualquer momento. Confesso que ultimamente tenho ficado abalada com isso tudo e me perguntado se tenho vivido e amado como deveria ou se tenho me perdido nesse mar de emoções que se transformou minha vida. No entanto, ironicamente, a morte pode nos ensinar a viver melhor.
Mas e a poesia, onde fica neste post? Nessa semana recebi uma avalanche de poemas. Não sei se foi coincidência ou providência do destino, não sei se tenho pessoas sensitivas demais ao meu lado a ponto de sentirem, mesmo de longe, que estou precisando de alento, não sei o que foi... só sei que me fez bem. 
Ainda estou "quebrada" em função das bolsinhas avassaladoras da Doxo e, por isso, meus dias têm sido mais tranquilos, sem muito esforço físico. Tenho lido coisas muito legais: Drummond, Lispector, Cora, João Cabral de Melo Neto e por aí vai... E, sem sair da minha casa, posso ir a lugares lindos, refletir, sonhar e acreditar que, de fato, tudo nessa vida passa. Estar em contato com isso tudo tem me ajudado a afastar sentimentos que não nos levam a lugar algum, nem à própria reflexão sadia sobre a vida e o que há de mais sublime nela.
Ler um poema. Escutar um poema. Falar um poema em voz alta. Perceber seu ritmo, sua música, sua comunicabilidade. E se lhe falta talento para transformar qualquer verso em algo fácil e acessível ou se você acha que poesia é coisa de gente intelectual e chata, experimete também e veja como essas pequenas coisas podem transformar seu dia.
No entanto, não encontramos poesia apenas nos livros ou nas palavras exatas... percebi que, na maioria das vezes, a melhor parte da poesia está justamente atrás daquilo que foi escrito, na entrelinha, ali, bem clandestina, fazendo jogo de esconde-esconde com sua alma, numa brincadeira que te leva a lugares desconhecidos, porém essenciais. Para mim, tem sido assim.
Onde mais podemos encontrá-la? Perto. Ao regar as plantas do jardim. Ao selecionar fotos para o porta-retrato. Dando uma caminhada no campo aberto, sentindo o cheiro da natureza. Escolhendo um vestido para almoçar com a amiga. Procurando objetos para a  casa conforme uma lembrança especial. Recebendo cartinha com flor de Jasmim.
Podemos, ainda, encontrá-la reverenciando o sol da manhã depois de uma noite de chuva. Encantando-se com o que é belo. Quando não conseguimos mais sentir prazer com certas trivialidades, nada que viermos a conquistar será suficiente, pois teremos perdido a noção do que a palavra suficiente significa. Sei que isso tudo parece fácil e que não é, mas se o primeiro passo não for dado, se a cortina de ferro entre essas realidades não for rompida, muito pouco vamos poder levar dessa nossa viagem pela vida.
Independente de religião ou crença, acredito que o que sustenta nossa existência passa pelo cultivo de um espírito de gratidão, sem penitências, culpas e outras tranqueiras. Gratidão por estarmos aqui e termos uma alma capaz de detectar o sublime no essencial, fazendo com que todo o supérfluo, que não é pecado desejar, torne-se apenas uma consequência agradável desse nosso olhar íntimo e amoroso a tudo que nos cerca.



Para terminar, deixo um poema lindo que me foi apresentado...

Dá-me a tua mão
Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

Clarice Lispector

Mas logo agora que a bruxa está solta por aí, logo agora que perdi uma grande amiga, logo agora que os políticos andam perdendo as estribeiras e lavando a roupa suja no plenário, eu venho falar de poesia?
Pois é, pareceu-me bastante oportuno.
Fiquem em paz!
Bjo, bjo, bjo.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Câncer? Não. Sou de gêmeos mesmo!


Boa tarde, people!
Amanhã faço mais um MTX e resolvi dar uma olhada no meu Protocolo de Tratamento, o GCBTO. Assim, como quem não quer nada, fui lá conferir quantas QTs exatamente ainda me faltam... hehehehe!
No entanto, outra coisa me chamou mais atenção: os números do osteossarcoma no Brasil. Coloquem reparo na epidemiologia e vejam como vim parar aqui:

Osteossarcoma: fatores epidemiológicos

1. Mais comum tumor ósseo maligno em crianças
Comments: Desde o primeiro diagnóstico, eu já não era mais nenhuma criancinha... façam idéia agora.

2. Idade-pico na adolescência, no estirão puberal
Comments: Também não sou mais uma adolescente e acho que nem passei pelo estirão... meus quase 1,50m não conheceram esse tipo de evento.

3. Mais frequente em meninos e negros
Comments: Sou menininha branco-amarelo-pardo.

4. Sítios mais frequentes são os ossos longos em rápido crescimento:
Fêmur distal
Tíbia proximal
Úmero proximal
Comments: Primeiro tive um diagnóstico na mandíbula... osso curtinho, curtinho. Depois, em uma vértebra na coluna lombar.

5. Tratamento multidisciplinar com quimioterapia neoadjuvante e cirurgia melhoram os índices de cura em 60-70%.
Comments: Não farei cirurgia. A expectativa é de que quimio e radio dêem conta do recado e espero eu que o índice de cura seja 100%... hehehe!

Agora a pergunta que não quer calar: como esse tumor veio parar em mim? O que está fazendo aqui? Isso não me pertence, nunca me pertenceu... hehehehe! De uma vez por todas, sai de mim, osteossarcoma... hehehe!


Mas se a vida me propôs viver esse desafio, fazer o que, não é? Há situações em que, infelizmente, não temos muitas alternativas. É enfrentar mesmo, com a cara e coragem. Daqui uns dias, a radioterapia começa e vamos que vamos. Assim que estiver tudo certo, volto para contar para vocês essa nova fase. Reta final cheia de emoções.

Bjo, bjo, bjo.

domingo, 13 de maio de 2012

Amor de mãe

Hoje é dia das mães. Hoje? Somente hoje? Claro que não. Mãe é para todos os dias, todas as horas, todas as situações. No entanto, se o segundo domingo de Maio é destinado a celebrar a vida delas, não há motivos para não fazê-lo.
Reza a lenda que a mais antiga comemoração ocorreu na Grécia antiga, onde os povos celebravam Reia, a mãe dos deuses. Várias são as histórias que justificam a especificação desse dia e diferentes são os dias em que muitos países resolveram colocá-lo no calendário. Mas isso não vem ao caso agora. Quero mesmo é falar da minha mãe.
Ela foi e é a pessoa que mais sofreu e tem sofrido com isso tudo que tem me acontecido. E, em contrapartida, é também o ser que consegue acalmar meu coração mesmo quando o dela bate mais forte que o meu. Minha mãe pouco sabe de medicina, mas entende tudo (ou quase tudo) de quimioterapia, remédios, alimentos que aumentam a imunidade, fatores de risco para infecção e por aí vai.
O trabalho dela ao meu lado é comovente e não pensem que isso tem ocorrido somente agora... só porque estou com câncer. Minha mãe é uma incansável quando o assunto é minha felicidade, a de Lucas e Maria Theresa. Lembro-me quando éramos crianças e ela passava horas nos ensinando as tarefas do colégio, preparando nosso alimento, arrumando nossas coisas. Muitas vezes, era tarde da noite e ela estava lá fazendo suas atividades porque havia passado o dia inteiro se dedicando a nós, suas crias amadas. Vivemos no aconchego da sua proteção durante anos, até criarmos asas e alçarmos nossos próprios vôos. O tempo passou, crescemos, ficamos cada dia mais independentes, mas jamais deixamos de ser os filhotes dela.
Hoje, mais do que nunca, vivo sob a tutela da minha mãe... Junto com meu pai, ela tirou licença de seu trabalho para se dedicar inteiramente a mim. E não tem feito feio. Por mais que eu seja maior de idade, por mais que consiga me virar sozinha, por mais que assuma meus próprios atos e por mais independente que seja, sem ela agora seria impossível.
Mãe, obrigada por tudo... porque, sem clichê, além da vida, você me deu vida. Só eu sei como é bom ter você para afagar minha cabeça, fazer minha vitamina pela manhã, pegar-me no colo e me ninar quando o dia está mais escuro que a noite. Quando estou lá na sala da Verinha procurando uma veia, sei que você sofre mais que eu, que levo as furadas. Quando estou cansada, sei que você me daria todas as suas forças físicas se pudesse. Quando penso em desistir, você se vira, mas me dá coragem para seguir em frente. 
Obrigada por ter me ensinado a respeitar o próximo, por ter me dado educação, por ter pago meus cursos, por ter comemorado como ninguém quando passei no vestibular, por ter me ensinado a cozinhar, por ter me dado exemplos que jamais esquecerei. Obrigada, até mesmo, pelos puxões de orelha que, por sinal, não foram poucos. No entanto, hoje vejo que aquelas lágrimas derramadas nos castigos me fizeram uma pessoa que aprendeu a ter limites, coisa rara em muitas crianças nos dias de hoje.
Obrigada pela família que me deu... e pelo exemplo de casamento que você e dad nunca deixaram desabar. Obrigada pelos meus irmãos... por sermos pessoas dignas e unidas. Sem seu carinho de mãe, aquele tão fascinante e que nunca se esgota, talvez não seríamos assim.
Obrigada pelo seu imenso amor... um amor que não mede esforços para me vir bem, curada, feliz. Seu amor é mais forte que qualquer quimioterapia e o melhor: não é mielotóxico! Fique sempre perto de nós... com seus dramas, com suas virtudes e defeitos, tornando tudo mais fácil.



Mãe, e se agora alguém me perguntar em qual lugar mais gosto de estar, não terei a mínima dúvida em dizer que é dentro do seu abraço... que é sempre quente e seguro. Nele, não ouço o tic-tac dos relógios e, se faltar luz, ele fica ainda melhor. Toda dúvida, sofrimento e tristeza se dissolve quando estou envolvida em seus braços... assim como fazia quando eu era pequenina.
Amo você.

Bjo, bjo, bjo.

sábado, 12 de maio de 2012

Finitude

Até há algum tempo, eu jamais imaginei que um dia poderia viver tantas experiências como tenho presenciado hoje. Emoções de todos os tipos, que deram uma freiada em minha vida, fazendo-me entender que, nem sempre, o airbag se abre na nossa frente. Tive uma semana difícil, não só em razão das minhas veias terem hibernado, mas porque presenciei situações que arrancaram lágrimas até dos olhos mais resistentes. E, além das lágrimas, momentos que nos levam a refletir sobre tanta coisa que mal sabemos por onde começar.
Dois anjos lindos, Júlio e Carol, bateram suas asas e voaram livres para o céu nessa semana. Crianças que mal tiveram tempo de brincar de boneca ou carrinho porque precisavam ir para a quimioterapia ou a outros compromissos que um tratamento oncológico exige. No entanto, mesmo com todas as pedras dos seus caminhos, eles passaram por muitas delas correndo, sorrindo, tendo coragem ou medo... um exemplo para lá de gigantesco. Tenho procurado entender tudo isso, mas, de verdade, é muito difícil você vir uma vida tão linda sendo ceifada dessa maneira e ainda assim ficar com o coração conformado.
Diante de tudo isso, me perguntei várias vezes qual o sentido dessa nossa vida, qual o valor que ela tem, o que, realmente, nos importa e o que devemos levar dela quando nossa hora de voar for inadiável.
Há algum tempo, fui apresentada a um texto fantástico que, antes mesmo disso tudo acontecer, já era um mandamento para mim... imaginem agora. Todavia, ontem, o reli como nunca havia feito... com os olhos e coração muito fragilizados pela já saudade dos meus amigos que se foram. Mais uma lição capaz de quebrar algumas regras do manual de instrução que recebemos logo nos primeiros anos de nossa existência. Leia e viaje nessas palavras:

Finitude 

O finito se expressa quando dou conta da existência de milhões de pessoas que jamais irei conhecer.

Para muitos, a finitude humana pode ser percebida pelas rugas que se multiplicam a cada ano no espelho, pelo vocabulário que soa inadequado ou pelo simples tique-taque do relógio pendurado na parede da cozinha. A finitude humana pode, ainda, ser detectada pelos filhos que crescem e pelos netos que nascem. A mim, a finitude se apresenta todo santo dia numa parada de ônibus, numa ciclovia, no balcão de um posto de informações. Meu carro passa veloz por uma rua e vejo um homem esperando o transporte que o levará de volta para casa. Um homem qualquer, que eu olho uma única vez e nunca mais tornarei a enxergar. Nunca mais rever é uma pequena morte.

Uma garota passa por mim de bicicleta. Mal tenho tempo de reparar se é morena ou ruiva, se sua mochila é grande ou pequena. Mas foi uma garota percebida por minha retina, que cruzou minha vista e minha vida por breves segundos, e para nunca mais. Assim como o homem que me atende atrás de um balcão, que fala comigo – fala comigo! –, me sorri e tira minha dúvida, e num instante lhe agradeço e viro as costas, e jamais saberei se ele é um profundo conhecedor da obra de Nietzsche ou um rapaz perturbado pela falta da mãe ou ainda um boçal que nas horas vagas depreda orelhões. Ele existe ou não existe para mim? Não existe.

Finitude eu sinto quando me dou conta da existência de milhões de pessoas que eu jamais irei conhecer, com as quais jamais irei conversar e interagir. De todas as que poderiam me ensinar a ser mais tolerante, de todas as que poderiam me fazer rir, de todas as que eu poderia amar ou desprezar, sofrer por elas, esforçar-me por elas, crescer através delas. Finitude eu sinto quando cruzo um olhar que não me ficará nem na memória, pois não há tempo para lembranças efêmeras. Uma vez ensinei uma menina, na beira da praia, a reconhecer as letras do próprio nome, e já não lembro que nome era esse e que menina era aquela. Nem ela de mim sabe nada. Uma cena começa e termina sem continuidade: finitude. Neste instante enxergo um senhor debruçado sobre uma varanda, olhando o movimento. Ele espia a vida dos outros, que nunca mais reverá. Eu olho para esse singelo voyeur, que daqui a instantes também desaparecerá para sempre de minha atenção. No entanto, um ser humano é o que há de mais rico. Uma vida é o que há de mais original. Surgem e nos atropelam tantas vidas, tantas pessoas para sempre inacessíveis, desperdiçadas em seu talento, em seu potencial transformador, em sua capacidade de nos emocionar. A esmagadora maioria delas passa e não fica, são flashes do olhar. Agarremo-nos, pois, às que ficam, permanecem, são reconhecíveis pelo nome e pelo trajeto percorrido em nós. Aproveitemos o material humano de que dispomos: família e amigos e amores. Escassos, raros e profundamente necessários.
Martha Medeiros
 
 
 
 
Portanto, VIVA o agora, viva mesmo, com toda intensidade e força, com tudo que você tem direito... não apenas brinque de existir. Abrace quem está ao seu lado, beije, chore, emocione-se com suas vitórias, assista a um filme junto de quem ama, tenha uma tarde incomum num dia comum, ligue tarde da noite (alô, Luciano?). Jamais saberemos quando isso tudo será interrompido e como será. Valorize quem está ao seu lado (ao seu lado!!!)... ame, apaixone-se, grite, sorria, declare-se, estude e tire 10 na prova, aprenda a falar outra língua... dê a você e aos outros o prazer de viver e conviver. Nossa vida é uma só até que se prove o contrário. E essa é a única chance de sermos felizes, assim como fizeram Júlio e Carol, apesar de tudo. 
Bjo, bjo, bjo.