terça-feira, 13 de março de 2012

"Defeitos" Colaterais

Os dias que se seguiram ao primeiro ciclo de quimioterapia foram mais amenos, porém tiveram seus altos e baixos. Não ir ao hospital foi um alívio... e, por mais que o corpo ainda sentisse os efeitos devastadores da Doxo e da Cisplatina, ficar no aconchego da sua cama, abraçada ao seu travesseiro e ao baldinho companheiro de todas as horas era muito mais confortável.
Continuei nauseada por uns bons dias ainda, mas os vômitos foram diminuindo... Em contrapartida, apetite tirou férias, assim como minha disposição para fazer qualquer coisa. Passava os dias e as noites deitada, só levantando para tomar banho... Ainda me alimentei muito mal por quase uma semana e, de quebra, ganhei uma dor no corpo insuportável (sabe aquela sensação de que um caminhão passou por cima de você? De frente e de ré? então...), acompanhada de calor e frio, frio e calor, me fazendo ir de uma estação a outra num passe de mágica... hehehehehe... Fadiga virou quase minha melhor amiga. Andava meio metro e parecia que tinha corrido e vencido uma maratona. Vão falar que sou dramática, mas juro, gente, é assim mesmo... hehehe...
No entanto, a maior surpresa veio mesmo quando isso tudo já tinha passado. Assim que meu corpo começou a dar sinais de recuperação, senti a garganta doer, arder, "fechar", como se tivesse algo impedindo a descida de qualquer alimento, até mesmo de água. E, de repente, essa mesma sensação tomou conta da boca em questão de horas. Inúmeras lesões também apareceram, lembrando aftas, mas era muito mais que uma simples afta... era mucosite! Inflamação e ulceração da mucosa, que se torna edemaciada, eritematosa e friável, resultando em dor, desconforto e dificuldade para ingestão de alimentos sólidos e líquidos, dependendo do grau de comprometimento. Um fantasma...
Por conta da mucosite, era quase impossível alimentar, justamente na hora em que o corpo pedia, pedia, pedia... Não foram raros os momentos em que chorei para comer. Conversar, rir... aiai! Fiquei muda nesses dias e, quando resolvia falar, sentia uma dor absurda. Agora o mais engraçado era quando eu encontrava alguém (os veteranos da QT) no hospital e a pessoa vendo aquela situação falava assim:"MTX, né?" E eu nem tinha feito essa quimio... Seria meu próximo ciclo. Imaginem o que estava por vir...


Mas tudo isso passou. E hoje, ao lembrar esses fatos, fico me perguntando como dei conta... E é justamente nessa hora que tomamos conhecimento do quanto precisamos conhecer de nós mesmos...
Tem uma frase do Johnny Depp que resume bem isso tudo: "Você nunca sabe a força que tem. Até que a sua única alternativa é ser forte.". Linda, não é?

Bjo, bjo, bjo.

4 comentários:

  1. Mais uma postagem linda, bem real, bem descrita. Lembro quando ligava pra mãe e falava: mãe, deixa eu falar com ela? Aih mãe ia, em vão, e estendia o telefone pra você, mas a resposta era negativa. Você ficou mesmo um bom tempo sem falar. De longe, nenhum de nos nem imaginou como era sentir a boca toda ferida, toda tomada por placas imensas de dor. Confesso que chorei quando fui ver você a primeira vez em Sao Paulo. Segurei pra nao chorar na sua frente, mas, ao sair do quarto, fiquei com aquela imagem das mucosites na minha cabeça por muito tempo. Me senti inútil, pq, sendo quase uma dentista formada (faltavam poucos dias para a formatura), eu não podia fazer nada, a não ser tentar conhecer um pouco mais da medicação que era prescrita pra vc e rezar, pra que Deus te desse muita forca. E vc, em seguida, mostrou que Deus ouviu minhas orações de irma, de amiga com quem você pode contar para o resto da vida! Realmente a frase eh muito linda e vc eh uma genuína praticante da essência dela. Fique com Deus, amo você!

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  2. Renatinha, me emociono toda vez, com todas as postagens...certamente todos nós temos mais forças do que sequer possamos imaginar..e vc é uma prova linda disso! Além do que Deus vai sempre nos dar poder além do normal para suportamos certas situações difíceis..estarei orando por vc! Beijos!

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    1. É isso aí, Dora. Tem uuma época da vida que todos aqueles ditados populares fazem sentido, né. E a que me veio a cabeça agora é que Deus não nos dá uma cruz mais pesada que podemos suportar. Estamos sim torcendo, orando, rindo e chorando com vc, amiga.
      Beijooos

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  3. "Sem autodescoberta de si mesmo, a pessoa pode ter até autoconfiança, mas é uma autoconfiança construída na ignorância e se dissolve em face de fardos pesados. A autodescoberta é consequência da vitória sobre um grande desafio, quando a mente ordena que o corpo faça o que é aparentemente impossível, quando a força e a coragem são convocadas para limites extraordinários em benefício de algo fora do eu - um princípio, uma tarefa onerosa, a vida de outro ser humano."

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