domingo, 18 de março de 2012

A saga continua...

Lembram aquele "defeito" colateral mais temido do MTX? Aquele que me assombrou antes mesmo de fazer este ciclo? O terror do pessoal do osteossarcoma? O calvário da quimioterapia de altas doses? Guardem isso aí...
Passei os 4 dias do MTX sofrendo com os intempéries que ninguém esperava que surgissem. Alergia, intoxicação, queda de potássio e tudo mais eram situações desconhecidas pela grande maioria dos pacientes. Fui a sensação do GRAACC nessa época. Alvo de estudo e indagações: "o que aconteceu com ela? Por quê?". E todos que me encontravam nos corredores do hospital sabiam exatamente tudo que havia ocorrido, até mesmo aqueles que não me conheciam. Ganhei fama, Brasil... hehehehe...
Mas, apesar de tantos sustos, a mucosite não saía da minha cabeça... era uma obsessão! Já tinha tido uma péssima experiência no ciclo anterior e, definitivamente, não queria passar por tudo de novo, muito embora esse parecesse ser um caminho sem alternativas para quem faz essa QT. Intensifiquei os bochechos, corri atrás da dentista feito doida para ter meu laser diário, evitei tudo, tudo mesmo que significasse risco para minhas adoráveis mucosas.
Esperei a mucosite e nada... Saí do controle do MTX e ela nem deu sinais de vida (ou morte). As pessoas perguntavam todos os dias se eu já tinha machucado a boca e eu, cheia de auto-confiança, falava alto e bom som: não, não estou sentindo nada... Comecei a me achar, pensando que estava arrasando, brilhando, superando a mais terrível etapa dessa quimioterapia. Um orgulho só... Mucosite? Nana nina não... isso não me pertence... hehehe. Entretanto, é como diz o ditado: toda a arrogância será castigada... hehehehe. E, assim, minha pena viria nas próximas horas, no momento em que eu já tinha absoluta certeza de que meus dias de glória tinham chegado. Gente, gente...
Depois de tanta água nos últimos 4 dias, o que eu mais desejava era comer tudo que tinha pela frente. Todas aquelas coisas gostosas que nossa mãe sabe fazer. E assim foi... após de ter sido liberada de todos os controles do MTX, cheguei em casa tarde, mas não abri mão do almoço. Enquanto minha mãe preparava tudo, fui tomar banho, livre de acessos venosos e bolsas de soro. Um alívio. Contudo, no banho mesmo, comecei a sentir a garganta fechar, arder, doer... engolia a saliva e já sentia um pequeno desconforto. No almoço, ficou pior... no lanche da tarde, estava quase impossível; no jantar, não conseguia nem beber água. Pouco tempo depois, aquela sensação de sufocamento na garganta já tinha tomado conta, também, da boca. Pequenas lesões, parecendo úlceras, começaram a surgir na mucosa oral que, a essa altura, já estava super vermelha, dificultando até o pronunciamento de qualquer monossílado.
Dormi assim e acordei com a boca, esôfago e estômago tomados por mucosite. E aquelas pequenas úlceras que, a princípio, pareciam tão inocentes, multiplicaram-se a tal ponto que uma encontrava com a outra, formando lesões imensas. Fui do céu ao inferno da noite para o dia. Literalmente. As dores eram fortíssimas, ignorando todo analgésico que eu tomava. Só opióide mesmo conseguia amenizar um pouco a situação. Amenizar... porque nada era capaz de cortar definitivamente a dor.
Não conseguia nem engolir a própria saliva, uma "baba grossa" que insistia em ser produzida. O esforço para comer ou beber alguma coisa era imenso. Comecei a detestar sentir fome porque isso, em outras palavras, significava um tormento para mim. Por vezes, era comer e fazer vômito e não era raro esses vômitos virem acompanhados de pedaços de mucosa e rajadas de sangue. Os dias foram passando e, apesar de todo esforço dos dentistas e médicos do hospital, nenhuma medida estava sendo eficaz. As sessões de laserterapia foram intensificadas, os bochechos e remédios para dor, idem.
Passei dias chorando de dor, de fome, de desespero diante de uma situação que estava ficando insuportável para mim. Até que chegou uma hora em que nem os remédios para dor eu conseguia tomar. Fui ficando fraca e susceptível a tudo... fui perdendo peso e a paciência também. Sem me alimentar direito, sem falar, sem conseguir fazer minhas atividades. Era uma prova para budista nenhum colocar defeito.
Depois de uma semana vivendo no meu limite e tendo que receber medicamentos e soro na veia porque nada passava pela boca, a hipótese de usar uma sonda começou a ser cogitada. People, sooondaaa! Recusei e quase assino um documento me comprometendo a comer até espinho se assim fosse preciso. Chorava feito criança para comer, mas nem sempre conseguia. E nada da mucosite regredir... pelo contrário. Para mim, aquilo ali só piorava. E piorou mesmo. Além das imensas úlceras, também tive monilíase no trato gastrointestinal e aí a internação foi inevitável, por mais que existisse a imensa chance de eu passar o Natal no GRAACC. Enquanto todo mundo recebia alta para as festas de fim de ano, eu estava sendo admitida. Não adiantou chantagem nem promessas.
Cinco dias internada, quase 15 de mucosite, 4 quilos perdidos e os nervos à flor da pele. Eu juro... não aguentava mais. Em menos de um mês, minha vida tinha mudado completamente. Passei os últimos 20 dias sentindo o que realmente é um tratamento contra um câncer. Foi inevitável não pensar nisso. De tudo que havia acontecido até ali, definitivamente, a mucosite superou tudo. Sentir dor e não conseguir se alimentar mesmo tendo o que comer é degradante demais, é contraditório para alguém que estava vivendo dias nefastos. Mas foi justamente nessa hora, no momento em que achei que meu jardim nunca mais floresceria, que ele começou a lançar seus primeiros brotos... ainda tímidos, mas cheios de vida.
Fui para casa ainda com mucosite, mas a infecção fúngica já estava controlada e as úlceras em processo de regressão. Tive dias difíceis ainda porque, apesar dos esforços, não consegui recuperar com facilidade o que havia perdido. Ainda senti muita dor e medo da mucosite se rebelar e querer dar as caras novamente, com toda fúria que eu tinha conhecido. Entretanto, no Ano Novo, já comecei a vislumbrar um pontinho de luz no fim do túnel...



E essa luz foi crescendo, crescendo, crescendo. E, embora seja clichê, não há verdade maior: tudo passa...

Bjo, bjo, bjo.

8 comentários:

  1. tudoo passa! mesmo.. saudades rena

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  2. Parabéns pelo seu blog, estou acompanhando todos os posts.
    Acho bem bonitas as fotos que você posta. Bela maneira de encarar de frente essa batalha. Desejo vitória para você

    Daniel - Turma 57

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  3. Nossa...
    Lembra daquela poesia que eu te escrevi? Pois bem. Na verdade não era pra ser aquela. Eu escrevi outra, mas achei muito "pesada", achei que vc deveria ler algo mais leve, porque de problemas vc já estava cheia. Então escrevi outra. Mas agora, pelo que vc escreveu, começo a achar que a primeira te diz mais respeito. Como as duas são suas, vou deixar aqui, embora eu já a tenha até postado no facebook, talvez vc até a tenha lido. De qualquer forma, saiba que quando eu a escrevi, era pra vc. Beijo.

    Definitivamente
    não somos aquilo que quiséramos ter sido:
    sonhos de princesa, delírios de novelas,
    paixões fúteis, devaneios, vazias quimeras.
    Nos tornamos aquilo que efetivamente deveríamos,
    o que não foi escrito, medido ou profetizado,
    sequer pressentido, sugerido ou vaticinado.
    Caráter forjado pelas circunstâncias daquilo que nos é exigido
    para sobrevivermos à poda – drástica – do Inverno temido,
    e renascermos em brotos e flores – diferentes, quiçá mais belas
    feito terra ressequida, sedenta de densas negras nuvens:
    auspícios de Primavera.

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  4. Minha fofa Renatíssima,
    Jura??? Uau! Meu ego tá mais inchado agora (gggrrrrr... isso tb vai pra balança)!
    Mas nem vem; fã sou eu! E receber elogio de ídolo é sempre muito bom.
    Uai! Não conseguiu acessar a matéria? Tentei copiar pra colocar direto, mas não deu. Vc não chega nem no link? Uéééé...
    Bjsssssssssss e apareça sempre! Fica com Deus!

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  5. Renata, estou emocionada em ler sua história....Você é uma mulher guerreira, só quem passa por tudo isso sabe. Fico feliz que esteja bem e lutando com fé! Um abraço!

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  6. " Intensifiquei os bochechos, corri atrás da dentista feito doida para ter meu laser diário, evitei tudo, tudo mesmo que significasse risco para minhas adoráveis mucosas. "

    É, Rê... Eu presenciei isso, lembra? Sofri por você por causa daquelas mucosites, mas ao mesmo tempo eu conseguia ficar alegre por ver o seu empenho em ficar boazinha! ;) To doida pra te ver de novo, Priminha! Um beijo, tá? Tenha um bom dia!

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  7. Ah, e como vão os seus dentistas? Ótimos, eles! Morri de rir... kkkk

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  8. Renata
    Com certeza no seu jardim ainda vão brotar muitas flores, lindas e coloridas, como você.
    E tudo vai passar.
    bjs

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